:: Atualizado quase que Diariamente ::

domingo, 7 de novembro de 2010

Meus Versinhos 7


Diariamente
(Monique Desiderio)

Todos os dias eles estão lá. 
Todos os dias.
Eu os vejo, mas penso que seria melhor não notá-los.
E finjo não ver.
Enquanto me guardo no cinismo de quem não se importa.
O pior é que me importo.

E fodam-se as políticas públicas,
De um governo que merecia tomar no cú de hora em hora.
E fodam-se os carmas, destinos e predestinações.
A fome bate hoje.
O frio, a sede e o abandono também.
Não esperam a próxima vida.

Cheiram mal. Todos.
Eles, por falta de banho, sabonete, casa.
Ferida social necrosada (pena não poder amputar!)
A África é aqui!

Todos os dias eles estão lá.
Todos os dias.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Como Criar Um Deliquente

Como Criar Um Deliquente
(Autor Desconhecido)

1- Comece na infância a dar ao seu filho tudo o que ele quiser, assim quando ele crescer ele acreditará que o mundo tem obrigação de lhe dar tudo o que deseja.

2- Quando ele disser nomes feios, ache graça, isso o fará considerar-se importante e desconsiderar aos demais desde pequeno.

3- Nunca lhe dê orientação religiosa, espere até que tenha 21 anos e decida por si mesmo, a sociedade há de auxiliá-lo, mesmo que ele se torne um fanático e seja explorado financeiramente.

4- Apanhe tudo o que ele deixar jogado (roupas, livros, comida), faça tudo para que ele aprenda a jogar a responsabilidade dele sobre os outros.

5- Discuta com freqüência na frente dele, principalmente nos 7 primeiros anos, assim ele não ficará chocado quando o lar dele se desfizer mais tarde.

6- De-lhe todo o dinheiro que ele quiser, nunca o deixe ganhar seu próprio dinheiro, assim você o poupa de passar pelas mesmas dificuldades que você passou, mesmo quando ele acabar com todo o patrimônio dele.

7- Satisfaça todos os seus desejos de comida, bebida, conforto, afinal isto poderia acarretar frustrações prejudiciais, mesmo que ele fique obeso, com problemas na coluna, visuais, tendências homossexuais por hormônios na alimentação.

8- Tome o partido dele contra os vizinhos, professores, policiais, afinal ninguém tem o direito de educar seu filho, só a TV e a empregada.

9- Não o oriente quanto as amizades, mesmo que os parentes lhe avisem que parecem traficantes, e quando ele se meter em encrenca séria, dê a desculpa que nuca conseguiu dominá-lo.

10- Quando estiver em profundo desgosto com a vida, console-se, diga que é o seu destino e o dele, que Deus quis assim...
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Vivemos sob uma idéia (má idéia) de que a pobreza gera deliquencia. Ideia esta sustentada por uma midia comprometida em arrecadar milhões pra apresentar a solução à este problema social (vide Criança Esperança, Instituto Ressoar...). Não seja alienado! Acreditar que cada criança favelada é um bandido em potencial, é mentira. Já atuei intensamente em favelas através destes projetos sociais. Convivo com pessoas de classe média alta todos os dias. Tem gente boa e "espertalhões" em todos os lugares. A ideia de que um hiperconsumo de informação, superconforto, nenhuma privação na vida, resulte em individuos bem educados tb é mentirosa. Valores morais não dependem de valor monetário. Quero muito ser mãe. Tenho me planejado pra isso. Confesso que a responsabilidade pesa, as vezes, e desencoraja. Me assusta ver mães e pais colocando filhos no mundo e os criando de qualquer jeito. E eu não estou falando de filhos não planejados e nem de falta de dinheiro. Estou falando de valores não arrumados, mal firmados. Conheço pessoas que não planejaram a maternidade, tiveram filhos e abraçaram de imediato a responsabilidade de prepará-los pra vida com o que eles realmente precisariam carregar, que são os bons valores morais, éticos e religiosos (além de um bom estudo, é claro!). Conheço pessoas que planejaram, tiveram filhos, deram a eles TUDO o que o dinheiro poderia comprar em certa situação, mas os deixaram perdidos; vc olha pros filhos e não vê o coração dos pais (e nem o deles). Eu queria muito conseguir criar meus filhos de modo que vcs me vissem neles (mais do que na semelhança fisica). Quero ter tempo de educá-los, de estar com eles, de conviver. Quero não precisar compensar minha ausência com presentes fora de data e hora. Que eles tenham boas referências em casa. Que saiam pra vida preparados (eu disse preparados e não prontos). Que tenham um olhar doce sobre as coisas, sem deixar de criticá-las. Enfim, eu quero muitas outras coisas que não cabem à esta lista, mas acho um bom exercicio pensar onde quero chegar, pra conseguir planejar como fazê-lo. Eles não se criam sozinhos, acredite! rs. E nem estarão prontos por obra do acaso. Algo precisa ser feito e com certeza eu não vou negligenciar e nem terceirizar isto.

Sucesso a todos, nesta empreitada!
Beijo grande.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Amigo, Um Ensaio

Já usei muito este texto na vida. Tempos outros, em que eu acreditava em tantas coisas outras.
Há muito não sou tão doce assim. Esperançosa nas minhas relações de amizade. Exposta, aberta, frágil. Nem considero este, um estado permanente de sentir assim. Mas é como me abro hj pra vida. É um texto bobo, que fala de amizade, de uma maneira tb boba. As coisas não são tão simples, poéticas e bonitas assim, na vida real. Na vida real, o bicho pega e ninguém vê. E os amigos precisam de muito mais do que textos bonitos. Mas acho que hj estou boba. E assim quero estar.

Então, em nome dos velhos tempos...
Aos meus! Sempre queridos!
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Amigo, Um Ensaio
(Marcelo Batalha)

Difícil querer definir amigo.

Amigo é quem te dá um pedacinho do chão, quando é de terra firme que você precisa, ou um pedacinho do céu, se é o sonho que te faz falta.

Amigo é mais que ombro amigo, é mão estendida, mente aberta, coração pulsante, costas largas.

É quem tentou e fez, e não tem o egoísmo de não querer compartilhar o que aprendeu.

É aquele que cede e não espera retorno, porque sabe que o ato de compartilhar um instante qualquer contigo já o realimenta, satisfaz.

É quem já sentiu ou um dia vai sentir o mesmo que você.

É a compreensão para o seu cansaço e a insatisfação para a sua reticência.

É aquele que entende seu desejo de voar, de sumir devagar, a angústia pela compreensão dos acontecimentos, a sede pelo "por vir".

É ao mesmo tempo espelho que te reflete, e óleo derramado sobre suas águas agitadas.

É quem fica enfurecido por enxergar seu erro, querer tanto o seu bem e saber que a perfeição é utopia. É o sol que seca suas lágrimas, é a polpa que adocica ainda mais seu sorriso.

Amigo é aquele que toca na sua ferida numa mesa de chopp, acompanha suas vitórias, faz piada amenizando problemas.

É quem tem medo, dor, náusea, cólica, gozo, igualzinho a você. É quem sabe que viver é ter história pra contar.

É quem sorri pra você sem motivo aparente, é quem sofre com seu sofrimento, 
é o padrinho filosófico dos seus filhos
É o achar daquilo que você nem sabia que buscava.

Amigo é aquele que te lê em cartas esperadas ou não, pequenos bilhetes em sala de aula, mensagens eletrônicas emocionadas.

É aquele que te ouve ao telefone mesmo quando a ligação é caótica, com o mesmo prazer e atenção que teria se tivesse olhando em seus olhos.

Amigo é multimídia. 
Olhos... amigo é quem fala e ouve com o olhar, o seu e o dele em sintonia telepática.

É aquele que percebe em seus olhos seus desejos, seus disfarces, alegria, medo.

É aquele que aguarda pacientemente e se entusiasma quando vê surgir aquele tão esperado brilho no seu olhar, e é quem tem uma palavra sob medida quando estes mesmos olhos estão amplificando tristeza interior.

É lua nova, é a estrela mais brilhante, é luz que se renova a cada instante, com múltiplas e inesperadas cores que cabem todas na sua íris.

Amigo é aquele que te diz "eu te amo", sem qualquer medo de má interpretação.

Amigo é quem te ama "e ponto". É verdade e razão, sonho e sentimento.

Amigo é pra sempre, mesmo que o sempre não exista.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Canção das Mulheres - Lya Luft

Canção das mulheres
(Lya Luft)*

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.

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*Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938) é uma romancista, poetisa e tradutora brasileira. É também professora universitária e colunista da revista semanal VejaIniciou sua vida literária na década de 1960, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Luft já traduziu para o português mais de cem livros. Entre esses, destacam-se traduções de Virginia Wolf, Rainer Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas MannFormada em letras anglo-germânicas, Lya tem mestrados em literatura brasileira e linguística aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 >> Mudou a vista, Mudou o ponto

"Tropa de Elite 2": mudou a vista, mudou o ponto
Perplexidade que filme pode gerar é convite de não rendição às circunstâncias e de reencontro com nossa humanidade

No primeiro "Tropa de Elite", era o mano a mano, aquilo que a psicodinâmica chama de pedagogia de violência, a tese da eliminação do crime pela eliminação do criminoso. Em "Tropa de Elite 2", entram a política, a sociedade e os direitos humanos.

Os personagens são mais complexos e interessantes. O professor militante e o agora tenente-coronel Nascimento se estranham, mas se encontram, mesmo sem o querer, na realidade dura que os envolve, em que um é indispensável ao outro.

Quando o coronel "cai pra cima" e começa a conhecer mais a fundo a sordidez entranhada no "sistema", já fica claro que, neste filme, a polícia é coadjuvante. Agora, o assunto é política, em que se choca o ovo da serpente da violência policial e das relações espúrias entre poder de Estado e delinquência.

A escória da polícia se transforma em força auxiliar de ambições políticas e, com isso, ganha licença irrestrita para o crime. Nascimento e seus seguidores são manipulados no território que não tem mais fronteiras legais porque a lei que vale já é a da própria bandidagem.

Como enfrentar? O mano a mano revela-se inútil porque a mão que joga combustível na violência não está nas ruas, no tiroteio do dia a dia. O sistema corrupto se alimenta do objetivo de permanecer no poder a qualquer custo e essa é uma das principais chaves para a degradação da política e do próprio tecido social.

É muito bem construída a trajetória da mudança de visão de Nascimento. Só consegue fazê-lo por meio do encontro com sua própria humanidade, no sofrimento pessoal de perdas e na relação conflituosa com o filho, ao lutar para compreendê-lo e ser compreendido por ele.

Daí vem a consciência de sua impotência, de ser pequena presa numa teia incomparavelmente maior do que suas estratégias e possibilidades de reagir. A saída é radicalizar no mundo da política, é tentar atingir o cerne da armadilha.

Depressão Política
O final me deu certa depressão política. É forte, mas passa uma sensação de generalização que não é boa porque reafirma o senso comum de que se sabe qual é o exato endereço do Mal. Destoa da capacidade de lidar com a complexidade do tema, presente em todo o filme. E se perde um pouco a importantíssima cortina levantada em relação ao voto, à responsabilidade de cada cidadão.

Recebi há alguns dias um texto de Rachel de Queiroz (1910-2003), escrito em 1947 para "O Cruzeiro". Ela alertava os eleitores do valor daquilo que se entrega a maus políticos: "Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem... Entregamos a esses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra... E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador."

A cartada radical de Nascimento é pegar o inimigo não pela força das armas, mas pela coragem de expor o sistema, trincando-o. O trânsito do primeiro para o segundo "Tropa de Elite" é o coração da discussão proposta por esse belo filme, de interpretações magníficas.

Nesse sentido, a impotência e a perplexidade que podem baixar quando a luz se acende no cinema são um convite de não rendição às circunstâncias. No limite, como aconteceu com Nascimento, todos vamos querer nos reencontrar com nossa humanidade, exigir que ela seja reconhecida.

Há sempre um ponto de retorno dado pelos indivíduos ou pela trama social, pela cultura, pela espiritualidade ou pelas instituições, entre elas a política. Que é das mais importantes, como se vê quando nos deparamos com as consequências de sua deterioração.
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(Escrito por Marina Silva* e publicado pela Folha de São Paulo em 27/10/2010)

*Marina Silva: é senadora da República (PV-AC), foi candidata à Presidência da República pelo Partido Verde nesta eleição e ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula (2003-2008).

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Voltando pra Casa (outra vez)

Morrendo de saudades de vcs!
Depois de uma breve temporada de atividades intensas (outras), retomo com um novo versinho (no post abaixo).
Espero que gostem.

(com uma fome imensa de escrever por aqui. esse espaço me fez muita falta, nestes dias. ideias e sentimentos pipocando aqui dentro. vou postando aos poucos. na medida em que estiverem organizados dentro de mim (ou não)). 

Boa Semana.
Beijo em todos.


Meus Versinhos 6

Menina Dos Olhos de Mel
(Monique Desiderio)

Menina dos olhos de mel
Nunca larga seu papel
Seu brinquedo predileto
Risca, pinta e dobra certo.

Guarda pra não perder
Escondidinho sem esquecer
Olha, retoca, conserta
Risca, pinta e a dobra (novamente) acerta.

Ela vai crescer
Seu mundo também
E vai aprender
Que é preciso ir além.

Há quem diga que vai sofrer
E as cores não vão valer

(há na vida os que passam sem sonhar)

Menina dos olhos de mel
Por favor, não deixe de crer
A estrada vai além do que se vê
E o pôr-do-sol é belo e certo.
O pôr-do-sol é belo e certo.
É belo.
É certo.